Dia dos Namorados


Artigo de Adriana Lage sobre suas experiências ao lado de seu namorado com deficiência visual

Adriana Lage

Ultimamente, tenho evitado me expor demais em meus textos. Como tem gente de todo tipo nesse mundo, muitas vezes, informações que seriam úteis para outros cadeirantes acabam sendo usadas de forma leviana e prejudicial. Portanto, agora, conto os milagres, mas não conto os nomes dos santos!

“Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
sem amor eu nada seria.”

Com a proximidade do dia dos namorados, resolvi falar um pouco sobre minha história de amor. Não sou muito a favor dessas datas comerciais já que, para mim, todo dia é dia dos namorados. Certa vez, li um artigo do Fabiano Puhlmann que falava sobre a necessidade de se alimentar um grande amor. Concordo com isso! Vivemos em época de amores descartáveis, de pessoas mais individualistas e onde acreditar em contos de fadas e no famoso “felizes para sempre” chega a ser chacota. Costumo sofrer bullyng por ser mais romântica! Risos. Brincadeiras a parte, acredito que todo amor precisa ser cuidado e cultivado diariamente. O ser amado precisa ser “mimado” e conquistado a cada dia. Pequenas surpresas em datas inesperadas, mensagens de amor, uma rápida ligação apenas para dizer que está sentindo saudades, pequenas concessões, sinceridade, muito diálogo, respeito, cumplicidade, fidelidade… Para mim, são os pequenos gestos os grandes responsáveis pela manutenção do amor. Certa vez, me disseram que sou uma mulher cara. Nada disso! Uma rosa comprada no sinal tem um efeito tão avassalador quanto uma jóia.

Chega de divagações! Hoje, vou compartilhar com vocês um pouco sobre a
história do meu namoro. Querendo ou não, somos um casal fora do padrão. Afinal, não é todo dia que encontramos na esquina um casal formado por uma
cadeirante e um cego.

Conheci meu sapríncipe – como traduziu bem minha terapeuta, metade príncipe e metade sapo! – através da Rede Saci. Ele entrou em contato com o site dizendo que lia meus artigos e que gostaria de conversar comigo. Na época, fiquei toda convencida, pois era fã da figura e nunca tinha imaginado que lia meus artigos e, muito menos, que gostava! Nossas agendas andaram desencontradas até que, no final do ano, fizemos uma entrevista. Após conhecer mais sobre sua história, ficou impossível não admirá-lo ainda mais. Vale lembrar que a admiração ainda se mantinha apenas na esfera da amizade. O tempo foi passando e, após uma decepção violenta, encontrei nele o ombro amigo que precisava. Ele foi fantástico! Uma gracinha… Tornou tudo tão mais fácil de ser superado… Além de me dar consultorias jurídicas e sentimentais, ele me fez rever vários conceitos, me fez voltar a dar boas risadas e a ter de volta o brilho no olhar. Ele entrou na minha vida com a força de uma tsunami. Chegou com tudo! Levou embora muitas coisas que já não faziam mais sentido… Estamos juntos há três meses. Pode parecer pouco tempo, mas a intensidade desses dias é semelhante a uma bomba atômica! Quantas novidades e descobertas…

No início, relutei muito para aceitar conhecê-lo pessoalmente. Na outra encarnação, só podem ter enterrado um sapo com meu nome costurado na boca em São Paulo! O sotaque paulista é minha criptonita. Só pode! Enfim, não estava bem emocionalmente e nem me sentia preparada para iniciar um relacionamento. Mas, uma das qualidades que mais admiro no meu namorado é sua persistência. Acabei me rendendo, rapidamente, e nos conhecemos em 1º de março. Bastou encostar nele para ter certeza que meu coração já havia sido roubado!

No início, tive muito medo. Eram muitas novidades! Nunca tinha convivido
com um cego tão intensamente. Preferi pecar pelo excesso de perguntas que manter as dúvidas. É como sempre falo nos meus textos: na dúvida, melhor perguntar que fazer coisa errada. Como já compartilhei com vocês em outro texto – quando completamos um mês juntos, meu coração acelerava toda vez que precisava descobrir a quantidade correta de tempero a ser colocada no prato dele. Várias dúvidas me atormentavam. Por exemplo, Será que ele resistiria ao meu lado sabendo que precisaria me ajudar com coisas básicas como me transferir da cadeira e me sentar? Essa ansiedade quase adolescente e os medos não foram privilégio de se tratar de um relacionamento entre um cego e uma “tetra falsa” – como ele diz, (rsrs). Qualquer coisa que
nos tire da zona de conforto, causa um friozinho na barriga. Minha sorte é que ele já tinha alguma experiência com cadeirantes, mas, para mim, era tudo novo! Tratei logo de ler muita coisa sobre cegueira. Um dos blogs que me ajudaram muito a destruir meus fantasmas foi oCotidiano Cego.

A convivência fez com que desenvolvêssemos uma sintonia que nunca imaginei. Para mim, é mágico saber que as coisas são bem mais fáceis do que imaginava! Hoje, meu namorado já consegue me transferir, me sentar, me ajudar com o que preciso. Até me colocar no carro ele consegue. A sintonia só não é maior por minha culpa. Até então, nunca tinha percebido a grande dificuldade que tenho com lateralidade! Ele tem sofrido comigo. Ainda sou uma péssima guia. Quanto mais quero acertar e ser rápida, mais me complico com as noções de direita/esquerda. Já pedi ajuda a minha fisioterapeuta e estou cuidando disso… Em breve, meu amor poderá pilotar minha cadeira de rodas sem nos colocar em risco. É como sempre falo para ele: “eu confio em você; o problema é falta de confiança na minha coordenação motora”! Ainda preciso aprender a guiá-lo melhor.

Tenho vivido muitas experiências novas. Dias intensos e de muitas descobertas. Adorei quando fomos ao cinema e consegui descrever o filme
para ele. Também tenho lido sobre audiodescrição e pretendo desenvolver habilidades básicas nesse sentido para tornar nossa comunicação ainda mais eficiente. Com ele, tenho freqüentado lugares novos, modificado algumas opiniões e olhares, feito coisas inimagináveis até pouco tempo atrás… Inclusive, descobri que existem milhares de marcas de cervejas e cachaças.
Estou me tornando uma bebum passiva! Risos. Já tinha me esquecido o quanto é gostoso e gratificante amar e ser correspondida. Acho que os pilares da nossa relação são o companheirismo, a cumplicidade e a sinceridade. Isso sem falar no diálogo. Achei alguém que fala mais do que eu! Além de admirá-lo muito, ele me dá coragem para modificar o que for preciso. Querendo ou não, depois que entrou na minha vida, muitos sonhos e planos que se encontravam engavetados se tornaram realidade. E na velocidade da luz… E eu que pensava em arrumar um moreno alto de 1,80m… Acabei me rendendo aos encantos de um sapríncipe “curintiano”. Só tenho que agradecer a ele por tudo! Ele tem coloridos meus dias e me feito flutuar por aí.

Ainda costumo me sentir um ET quando saio com meu namorado. É engraçada e, às vezes, um pouco incômoda a reação das pessoas. A maioria sempre comenta que somos corajosos e acham linda nossa história. Em compensação, outros seres sem luz só faltam nos fotografar. Fazem um raio x com olhar. A mentalidade de algumas pessoas ainda é tão atrasada que, há pouco tempo, um mendigo do centro de BH disse para minha cuidadora: “meu Deus! Quanta desgraça. O que você fez para cuidar de dois”?! Cada coisa que se escuta por aí… Olhares e opiniões à parte, formamos um belo casal.

Falar que um relacionamento entre uma tetra e um cego é fácil, seria mentira. Mas, posso garantir que é bem menos complexo do que imaginava e, plenamente, viável. Sejamos honestos: quem disse que existe relacionamento fácil? Todo casal tem suas limitações. No nosso caso, se vivêssemos em uma
sociedade realmente inclusiva, tudo seria mais fácil. A falta de acessibilidade costuma dificultar um pouco nossa vida. Provas disso são os bares com acesso apenas pelas escadas, a falta de poltrona para acompanhante no local reservado para cadeirantes no cinema, calçadas mal conservadas, obstáculos arquitetônicos mal sinalizados… Mas, felizmente, onde falta acessibilidade há sempre um ser iluminado para nos ajudar.

Como ele mesmo diria, por que estou dizendo tudo isso a vocês? Simplesmente, para mostrar que, quando se ama de verdade, todos os obstáculos podem ser contornados. Com um pouquinho de criatividade e cumplicidade, encontramos solução para tudo! No meu caso, acredito que tanto nossas habilidades quanto deficiências se complementam. Sou seus olhos enquanto ele faz por mim o que minhas pernas e braços não conseguem. Para terminar, deixo uma mensagem que li numa rede social que, para mim, resume bem o que penso sobre a vida e suas possibilidades: “Quando deixei de olhar tão ansiosamente para o que me faltava e passei a olhar com gentileza para o que eu tinha, descobri que, de verdade, há muito mais a agradecer do que a pedir”. Pensem nisso!

Fonte: Rede Saci
11/06/2013

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